quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Sobre... Cyberpunk - Entendendo o Conceito

 “A rua encontra suas próprias aplicações pras coisas.”
- William Gibson, pai do movimento cyberpunk.

Saudações “fixers” e “samurais urbanos” de plantão!

Conforme o prometido aos “n00bs” sobre o assunto, hoje este artigo dedica mais algumas palavras sobre a temática cyberpunk. Então, aproveitem a leitura (antes que tais informações sejam hackeadas e deletadas por “ronins” a serviço de alguma megacorporação).

O que é “Cyberpunk” afinal?
“Cyberpunk” foi o nome atribuído a um movimento literário de ficção científica da década de 1980 e, de certa forma, continua sendo atual. Embora existam vários autores das décadas de 60 e 70 cujas obras pareçam cyberpunk, o termo só foi cunhado com a publicação do romance Neuromancer de William Gibson em 1984, (o qual ganhou os prêmios Hugo, Nebula e Philip K. Dick — feito que nenhum romance havia conseguido antes).

Com Neuromancer introduziu-se uma visão “diferente” do futuro. Desapareceram as cidades protegidas por cúpulas de vidro (Nota do Veterano: se algo como “Os Jetsons” lhe veio ao pensamento, acrescente 100 pontos de experiência virtuais na sua conta! rs) e as utopias da Idade de Ouro da ficção científica. Nos livros cyberpunk, tais cúpulas ainda existem... mas estas são ocupadas pelos ricos e guardadas por forças de segurança que primeiro atiram e nunca se preocupam em perguntar depois...

O argumento da escrita cyberpunk se centra em um conflito entre hackers, inteligências artificiais, e megacorporações, tendentes a serem postos dentro da Terra num futuro próximo e iminente, em oposição ao futuro distante e o panorama de encontros galácticos de romances como Fundação de Isaac Asimov ou Duna de Frank Herbert. As visões deste futuro tendem a ser distopias pós-industriais, mas estão normalmente marcadas por um fomento cultural extraordinário e o uso de tecnologias em âmbitos nunca antecipados por seus criadores.

O mundo do futuro cyberpunk é vibrante — pulsando com vida, das sarjetas até os arranha-céus. Contudo, irônica e paradoxalmente, a vida tem pouco ou nenhum valor, talvez justamente porque haja tanto dela (a população de megacidades como Nova Iorque e Tóquio, por exemplo, é algo na ordem de 20 milhões de pessoas... talvez até mais).

Uma cena do cotidiano de uma cidade cyberpunk (Fonte: I.Z. 2.0)
Mas paralelamente, ele também tende a ser é um lugar sinistro e sombrio, com computadores ligados em rede que dominam praticamente todos os aspectos da vida cotidiana. Empresas multinacionais gigantescas (ou megacorporações, se preferir) substituíram o Estado como verdadeiros centros de poder. A batalha do excluído alienado contra um sistema totalitário é um tema recorrente nesse tipo de ambientação (afinal, os que detêm o poder querem mantê-lo; os que não o possuem, desejam arrebatá-lo); entretanto, na ficção científica convencional, tais sistemas tendem a ser estéreis, ordenados, e controlados pelo Estado. Já no cyberpunk, mostram-se as entranhas da corporatocracia, e a batalha interminável entre seu poder por renegados desiludidos.

Como jogar Cyberpunk?
(Nota do Veterano: as ideias propostas a seguir, não devem ser consideradas como uma “regra escrita em aço reforçado a maçarico laser”. São apenas algumas linhas dedicadas a tentar passar uma ideia geral da “pegada” do estilo cyberpunk. O “jeito certo” de jogar dependerá da ambientação que estiver utilizando como cenário e o que for considerado divertido ou não para você e seu grupo de jogo).

O Estilo: Um jogo com temática Cyberpunk pode ser muito diferente dos gêneros tradicionais como fantasia ou super-heróis. No cyberpunk, mais do que qualquer outro gênero, tenta-se refletir com exatidão a natureza humana do “mundo real”. Ideias tradicionais como fidelidade partidária podem ser discutidas. Traição, corrupção e fraude são coisas (infelizmente) comuns no mundo real — basta ler qualquer jornal para confirmar — sendo assim, porque não o seriam no jogo?

A moralidade convencional de jogo — do bem contra o mal — tem um papel bastante limitado neste gênero. Quais são os pontos de referência? Os personagens da literatura cyberpunk estão constantemente cometendo atos antiéticos, ilegais ou imorais, mas o fazem muitas vezes por razões que definiríamos como “boas”. Por outro lado, um governo repressivo pode definir como “bom” um comportamento que sufoca o espírito humano e reduz a individualidade a pó. No mundo cyberpunk raramente existe preto ou branco, mas sim, uma infinidade de matizes de cinza.

Homem ou Máquina? (Fonte: I.Z. 2.0)
O estilo de um jogo cyberpunk é um definido principalmente por dois elementos. O primeiro é a grande interação do homem com a tecnologia. Os computadores são tão comuns quanto aparelhos de TV no futuro cyberpunk, e na literatura cyberpunk, muito da ação se ambienta virtualmente, no ciberespaço – a fronteira evidente entre o real e o virtual fica embaçada. Uma característica típica (ainda que não universal) desse gênero é a ligação direta entre o humano e sistemas de computador.

Em casos como este, a linha divisória entre homem e máquina é muitas vezes tênue e difusa. Um computador com inteligência artificial (comumente chamada de I.A.) tem vida? Se o seu cérebro fosse colocado dentro de um corpo mecânico, você ainda seria humano? Se você acha que não, onde está a linha divisória? Os personagens das aventuras cyberpunk terão que estar preparados e aptos a lidar com a tecnologia em todos os níveis, desde uma garrafa de cerveja quebrada a um traje de combate militar.

Já o segundo elemento encontrado na maioria das obras cyberpunk é o confronto. Resumidamente, o mundo é dividido em dois grupos — os que têm e os que não têm — com um imenso abismo entre eles. Este conflito pode ser militar, social, econômico ou simplesmente uma luta pessoal com os demônios internos do personagem.

"São apenas negócios..." (Fonte: I.Z. 2.0)
Os Protagonistas: Os personagens do gênero cyberpunk geralmente são hackers moldados frequentemente na ideia do herói solitário que combate a injustiça: cowboy, ronin, samurai, etc. Normalmente são pessoas desprivilegiadas, colocadas em situações extraordinárias, que mais se adaptam ao perfil de cientistas brilhantes buscando avanços ou aventura do que aos de verdadeiros “heróis”. Segundo Lawrence Person, "Os personagens do cyberpunk clássico são seres marginalizados, distanciados, solitários, que vivem à margem da sociedade, geralmente em futuros distópicos, onde a vida diária é impactada pela rápida mudança tecnológica, uma atmosfera de informação computadorizada ambígua e a modificação invasiva do corpo humano".

Em uma ambientação cyberpunk, os protagonistas podem ser diversas vezes manipulados, postos em situações onde têm pouca ou nenhuma opção, e ainda que eles podem ver-se nisto, não necessariamente chegam a estar mais longe do que previamente estavam. Estes anti-heróis – “criminosos, párias, visionários, desertores e inadaptados” – não experimentam o “caminho de herói” de Joseph Campbell como um protagonista de uma epopeia homérica ou um romance de Alexandre Dumas. Pelo contrário... em troca, eles traem a memória do investigador particular do romance policial, que poderia solucionar os casos mais complexos, mas nunca receber uma recompensa justa. Esta ênfase sobre os inadaptados e descontentes é o componente "punk" do cyberpunk.

Sociedade e Governo: no ambiente cyberpunk é comum o uso de metáforas para expor as preocupações atuais sobre os efeitos e o controle das corporações e multinacionais capitalistas sobre as pessoas, a corrupção nos governos, a alienação e a vigilância tecnológica, entre outros exemplos. Assim, o cyberpunk pode muitas vezes ser entendido como uma “inquietude e um chamado à ação”.

Notas do Veterano:
1) Alguns trechos deste artigo foram retirados, adaptados, ou utilizaram como base as informações contidas no suplemento GURPS Cyberpunk, que independente do sistema utilizado, é uma excelente fonte de referências sobre o assunto (apesar de atualmente não ser tão fácil de ser encontrado por estar fora de catálogo).

2) Caso tenha se interessado pelo tema, não custa lembrar: a campanha de financiamento coletivo do livro Interface Zero no Catarse pela editora Pensamento Coletivo está em andamento até o dia 19/12/2015. É uma excelente oportunidade de adquirir um cenário cyberpunk pronto para usar em sua mesa de jogo.
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