Páginas


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Guisado de Gnomo – Preparando Novos Narradores

"Semeie seus campos para que um dia você também possa jogar novamente..."

- Angela Murray, Blog Gnome Stew


Saudações, prezados amigos!

E iniciando oficialmente as atividades do ano, nosso estimado (maishein?) Troll “cozinheiro gourmet” (que não tombou pelas mãos de aventureiros desinformados…rs) reabre a taverna, compartilhando hoje com vocês a tradução de mais um artigo do acervo do blog Gnome Stew. Dessa vez, abordando alguns conselhos interessantes para os Narradores “escola véia” quanto a orientação de potenciais futuros Narradores. Boa leitura!


Guisado de Gnomo – Preparando Novos Narradores  

Por   Angela Murray

Tradução da postagem Cultivating New GMs, publicada em 19/01/2018 no blog Gnome Stew.

Quando comecei a jogar, na “era de bronze” dos RPGs, em 1986, o papel de Narrador era um trabalho envolto em mistério e revestido por uma aparência de extrema especialização. Fui advertida, sob termos inequívocos, a nunca, jamais, consultar o Guia do Mestre. NUNCA! Os segredos de como conduzir um jogo eram um conhecimento precioso que só poderia ser compartilhado com aqueles que eram “realmente dignos”.

É verdade que éramos todos adolescentes naquela época, então qualquer tipo de fraqueza tinha que ser escondida. Mesmo que o Mestre não tivesse certeza de como lidar com uma decisão, ele nunca poderia demonstrar essa fraqueza aos jogadores da mesa. Se o fizesse, seria instantaneamente devorado pelos lobos. Ou, pelo menos, era assim que agíamos. A faculdade não foi muito melhor, pois mudei para o Champions e suas regras matemáticas complexas. Por mais que nós, jogadores, amássemos o jogo, o Mestre era tratado como alguém da realeza, porque somente ele poderia ter o nível de conhecimento necessário para conduzir um jogo adequadamente (Nota do Veterano: ou, citando o Computador do Paranóia RPG, “essa informação não é para o seu nível de segurança, cidadão!” rs).

Eu já tinha quase vinte anos de experiência no hobby quando conheci alguém que não tratava a função de narrar como “um mistério sagrado a ser mantido longe das massas ignorantes”. Ele queria jogar e isso significava encontrar Narradores. Como não conseguia encontrar nenhum, ele começou a criar alguns. Com sua insistência, tentei me aventurar como Narradora e descobri que gostava disso, e que não era tão difícil quanto me levaram a acreditar.

Nunca subestime o poder de uma boa orientação. 

Hoje em dia, há uma infinidade de recursos disponíveis para quem quer experimentar  narrar, mas ainda assim pode ser necessário um “empurrãozinho pessoal” para que alguém realmente dê os primeiros passos e conduza o seu primeiro jogo. Nunca subestime o poder da orientação. Aqui estão algumas das minhas ideias sobre como desenvolver novos Narradores:

Não trate a função de Narrador como algo que apenas alguns poucos talentosos podem fazer.  
É muito fácil se deixar levar pelo mito da grandiosidade que pode cercar um bom Narrador. Nós, jogadores, realmente gostamos de Narradores habilidosos e isso é um grande impulso para o ego.  

Entre bons Narradores que se vangloriam com a lenda de sua própria grandeza e as histórias divertidas de Narradores sofríveis, é compreensível que alguém que não seja um Narrador presuma que é necessário possuir um conjunto de habilidades avançadas para sequer tentar conduzir um jogo. Mesmo hoje, com todos os recursos disponíveis ao nosso alcance na internet, ainda ouço jogadores dizerem que não seriam capazes de conduzir um jogo.

Não fique complacente em apenas aceitar os elogios que seus jogadores lhe dão. Seja honesto sobre as áreas com as quais você teve dificuldades em um jogo. Seja transparente sobre o que envolve a condução de um jogo. Explique as coisas que você tentou e que não funcionaram da maneira desejada, ou como você teve que se adaptar rapidamente para lidar com algo inesperado. Todos nós somos atingidos pela síndrome do impostor ocasionalmente, e compartilhar essa vulnerabilidade com seus jogadores pode permitir que aquele Narrador em potencial entenda que mesmo Narradores experientes ocasionalmente têm dúvidas.

Procure os jogadores que você acha que podem ter as habilidades certas.
Um bom jogador nem sempre se traduz em um bom mestre, mas se você prestar atenção em quais jogadores contribuem de certa forma para o jogo, você poderá identificar quem possui potencial para gostar de conduzir um jogo. Quem são os influenciadores, os jogadores que podem fazer as coisas acontecerem para o bem de toda a mesa? Você tem um jogador que parece saber instintivamente o que agregar ao jogo para levar as coisas adiante? Que tal alguém que seja bom em envolver os jogadores mais quietos na ação?

Geralmente, é possível perceber a diferença entre jogadores que são realmente apaixonados pelo jogo e aqueles que gostam dele, mas não têm o mesmo nível de envolvimento. Comece a sugerir que o jogador mais engajado pense em organizar seu próprio jogo. Seja honesto sobre querer uma chance de jogar também. Se você perceber que um jogador possui uma compreensão inerente de como dizer “sim, e” no jogo de uma forma que torna a experiência divertida para os outros na mesa, ele é alguém que você deve começar a tentar orientar para que organize seus próprios jogos.

Ajude-os a encontrar um jogo que se adapte aos seus interesses e nível de experiência.
Se você perguntar a um grupo de jogadores qual seria um bom primeiro jogo para um Narrador iniciante, você receberá dezenas de respostas, todas insistindo que apenas o jogo que estão sugerindo é a escolha ideal para o novo Narrador. A resposta real será muito, muito mais complexa e deve se concentrar no que vai capturar a imaginação do futuro Narrador, e preferencialmente, em um sistema com o qual ele sinta-se confortável.

Digamos que você tenha um jogador com muita experiência em Shadowrun, mas que nunca tenha conduzido um jogo. Shadowrun está longe de ser o jogo que eu sugeriria como primeiro jogo para um aspirante a Narrador, mas se esse jogador sente-se confortável com o sistema e o gênero, pode ser uma boa opção para ele. Considero os jogos PbtA [1] fáceis, mas essa simplicidade pode não ser percebida por alguém que possua uma experiência limitada com jogos narrativos ou que não tenha uma base de anos de jogos tradicionais para se apoiar.

Ajude ao Narrador que você está tentando criar a encontrar o equilíbrio certo entre um gênero que o entusiasma e um sistema que ele acredita que se sentiria confortável em utilizar. No meu caso, meu amigo me incentivou a tentar conduzir um jogo de super-heróis, o que fiz com Mutantes & Malfeitores. Eu tinha paixão por RPGs de super-heróis e M&M era um jogo com o qual eu tinha alguma experiência, então foi uma transição relativamente fácil.

Ofereça críticas honestas e construtivas sobre o que deu certo e o que poderia ter sido melhor
Depois que eles mergulharem de cabeça e conduzirem a primeira sessão, não deixe de dar um retorno sobre o que funcionou e o que não funcionou. Seja encorajador, mas também seja honesto. Se os NPCs deles pareceram um pouco sem graça, ofereça sugestões sobre como melhorar isso. Se o ritmo dos encontros funcionou muito bem, reforce isso com elogios. Recomendo fazer isso em particular e não transformar isso em uma discussão completa sobre “rosas e espinhos” com toda a mesa cheia, especialmente se o novo Narrador ainda estiver sentindo-se inseguro sobre suas habilidades.

Este não é apenas um feedback pontual. Cada sessão vai oferecer coisas que correram bem e coisas que não correram tão bem assim. Contanto que o novo Narrador aprecie o retorno, continue a oferecer orientação sobre como conduzir os jogos.

Sou grata ao meu amigo por ter sido tão determinado a jogar, em vez de sempre fugir, que dedicou tempo para me incentivar a conduzir meu primeiro jogo. Eu poderia ter acabado participando em algum momento futuro, mas ele garantiu que isso acontecesse e mudou completamente o curso da minha relação com esse hobby. Se não fosse por ele,  provavelmente eu não estaria escrevendo artigos de conselhos para mestre aqui no blog.

E você? Alguém o incentivou a conduzir o seu primeiro jogo? Você já orientou alguém a tentar fazer o mesmo? Eu adoraria ouvir suas histórias.

Nota do Veterano: [1] PbtA significa Powered by the Apocalypse (ou algo como “Impulsionado pelo Apocalipse”), uma estrutura de design para jogos focada em narrativa, colaboração e regras fluidas, originada do RPG Apocalypse World, publicado no Brasil pela Secular Games.

Nenhum comentário: